domingo, 7 de agosto de 2011

A INTERAÇÃO PROFESSOR-CRIANÇA EM MOMENTOS DE BRINCADEIRA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Saionara Costa (UNIVALI)
Maria Helena Cordeiro

Introdução
A reflexão que apresentamos neste artigo refere-se a uma discussão teórica sobre as características da interação professor-criança como momento de enriquecimento e valorização das vivências individuais e coletivas das crianças que freqüentam a Educação Infantil. Esta reflexão parte da pesquisa de Dissertação de Mestrado da primeira autora, que está em andamento, na qual nos propomos a avançar os estudos sobre a interação professor-criança na Educação Infantil, centrando o foco no papel do professor.
Enquanto pesquisadoras da Educação Infantil temos observado que um grande desafio dos professores é conhecer os desejos e as necessidades das crianças e como organizar cada tarde a partir das observações do dia anterior. Algumas dificuldades se apresentam com maior peso nessa empreitada: é necessário que o professor desenvolva um olhar atento sobre seus alunos, focando uma atenção mais detalhada em algumas crianças por tarde, mas, ao mesmo tempo, não pode perder de vista a dinâmica do grupo como um todo, registrando os diversos movimentos realizados em sala; precisa saber a maneira apropriada de interagir com cada criança nos momentos em que, sendo ou não solicitada, sua participação é necessária para instigar na resolução de um problema encontrado, para participar de uma brincadeira ou até mesmo para lembrar algumas regras combinadas pelo grupo para este momento de trabalho.
Com base no conhecimento sobre os processos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças e como estas constroem seus conhecimentos, cabe ao professor promover esses processos, propiciando à criança o máximo de oportunidades para, autonomamente, construir conhecimentos em sua sala de aula. Faz-se necessário, para isso, criar meios que permitam ao professor avaliar os processos de interação em que está (ou deveria estar) envolvido, levando-o a construir a intersubjetividade com seus alunos, que consiste em o professor conseguir coordenar a sua interpretar da situação e dos objetos da interação com a interpretação realizada pela criança.
Desta forma, neste artigo, nos propomos a avaliar a atuação da primeira autora em sala de aula, com crianças na faixa etária entre 4 e 5 anos, a partir de observações de dois episódios videografados no tempo de atividades de livre escolha, partindo dos referenciais de Oliveira (2002), Hohmann e Weikart (1995/97), Davis (1989), Dias (2003), Verba e Isambert (1998).

A interação professor – criança no contexto da Educação Infantil
Para que a criança se desenvolva integralmente, é necessário que conheça bem o ambiente em que está inserida, manuseie os materiais e que seja respeitada em suas características individuais e ritmo próprio. Este ambiente exige do professor, como sujeito mais experiente das situações que se estabelecem no contexto de sala de aula, que pense nas possíveis interações que serão estabelecidas na sua sala e assim organize os móveis e materiais, isto é, ofereça materiais, e conforme sejam explorados procure variar estes materiais e acrescentar outros de acordo com a solicitação nas e pelas experiências do grupo (ZABALZA, 1998). Esta preocupação com o ambiente é fundamental para que efetivamente a sala de aula e as interações possam provocar desafios e possibilitem novas oportunidades de exploração e construção do conhecimento. (HOHMANN e WEIKART, 1995/97)
Assim, a participação da professora nas atividades de livre escolha das crianças, tem início quando a mesma recebe os materiais trazidos de casa no início do ano pelos pais e faz a seleção de quais serão disponibilizados nas estantes das áreas de trabalho, que serão oferecidas em sala e que estimularão as brincadeiras das crianças neste espaço. Podemos destacar a importância da organização do espaço feita por áreas de trabalho, enquanto possibilidade de desenvolvimento da livre iniciativa, independência, senso crítico, busca de soluções para pequenos problemas e criatividade. As crianças, aos poucos, constroem a autonomia e responsabilidade, como também se tornam organizadas, tendo um maior respeito com seus amigos e aprendendo a ouvi-los (HOHMANN e WEIKART, 1995/97).
Com o acompanhamento diário, observando e até mesmo brincando junto às crianças e percebendo seus interesses, necessidades e desejos, a professora organiza/reorganiza as áreas de trabalho. Desta forma, organizar o ambiente é fundamental para que efetivamente a sala de aula e as interações entre professor/aluno/objetos possam provocar desafios e possibilitem novas oportunidades de exploração e construção do conhecimento. (HOHMANN e WEIKART, 1995/97).

Análise do 1º episódio
As crianças terminam de fazer o planejamento, feito em pequeno grupo com a professora, e dirigem-se à área de trabalho escolhida. Neste dia, todas as crianças escolheram brincar na área da casa. Esta área é organizada com materiais trazidos pelos pais das crianças no início do ano: utensílios de cozinha [panelas, pratos de plástico, talheres grandes de plástico e de madeira, escorredor de louça, porta-sal, fogão, sorveteira, etc.], brinquedos [carrinho, bonecas, bonecos, móveis para casinha, berços], aparelhos eletrônicos fora de uso [rádio, mouse, teclado, telefones, walkie-talkie, etc.], máquina de escrever, carrinho e cestinha de compras, embalagens de produtos, caixa registradora e brinquedos de praia. Estes materiais são oferecidos em quantidade suficiente para favorecerem a brincadeira livre das crianças, proporcionando a troca entre elas e com as professoras.


Antonio
(Se aproxima da professora que está sentada em cima da mesinha da área da casa, observando as crianças que brincam nesse espaço)
Ô Saio, tu põe aqui com fita no meu braço?
Profª.
(Responde ao Antonio) Ponho!
Brian
Ô Artur, pega um garfo! Ô Artur, pega um garfo! Artur, tu tinha que pegar esse ó, só que esse eu peguei primeiro! (mostrando o garfo que ele pegou)
Profª.
(Fala para Antonio) Pega a fita lá... André, vai buscar a fita, então!

A pega a fita na área de artes e entrega-a à prof.
Profª.
Como se faz com a fita? (A professora se abaixa para atendê-lo.)
Antonio
(Responde à professora) Enrola de fita assim. (Antonio faz o movimento de como a professora pode fazer.)
Profª.
(A professora convida outra criança próxima para ajudá-lo) ó Artur, ajuda o Antonio a colocar a fita no... na... no braço? (Artur faz que sim com a cabeça.) Então, vem, vem cá ajudar. Ele e você se ajudam.

Artur ignora o convite da professora
Artur
ô Saio! ... tem dois negócio desse Saio? Tem dois também? (refere-se às colheres de pau) Ai, já sei, já sei! Dois negócios fica massa!
Profª.
Só que ontem essa brincadeira deu um probleminha, né? Que você machucou o Gilberto. Então hoje, tomar cuidado para não machucar os amigos. (Saio fala olhando para o Artur)
Artur
o Daros?
Profª.
Não, você machucou o Gilberto Silva. Lembra que você bateu com o celular nele? Aí ele chorou. Porque machucou. Bateu na mão. Então, tem que tomar cuidado.
Artur
(Artur mostra aonde quer que a professora coloque a colher dele com fita: no cotovelo.)
Profª.
queres ajuda? (pergunta para o Artur)
(Saio cola com fita o garfo no braço do Artur)
Artur
(Artur vai até a estante buscar mais talheres grandes)
Brian
(Brian se afasta e vai até a estante.)
Antonio
Eu não machuco assim, ó. Eu não fico batendo. (refere-se ao comentário da professora).
Profª.
(para Antonio) É?
Artur
(para o Brian) Vamos pegar outro negócio!
Brian
Eu quero outro desse! (refere-se à colher)
Antonio
Eu também!
Artur
outro pro braço!

Coloca no meu joelho?
Profª.
Ã?
Antonio
Põe no outro braço!
Profª.
(Para Arnaldo) Coloco!
Brian
Tú vai pôr aonde, ar? No braço ou no joelho?
Artur
Nos dois!
Profª.
Deu? (Ri para o Antonio e cola outra colher no Artur)
Profª.
Calma eu vou arrumar. (responde a um comentário de Artur que não dá para entender) O outro. Deixa a Saio sentar. Quê? Vê se ela fica presa.
Brian
Não, ela faz assim, ó!
Profª.
Ãaaa!


A cada realização das atividades de livre escolha é importante que, enquanto a professora acompanha a dinâmica do grupo, consiga priorizar algumas crianças para que possa acompanhá-las e observá-las durante a realização de suas brincadeiras. Ao focar a atenção sobre determinada criança ou um pequeno grupo, a professora torna-se disponível para atendê-los conforme a necessidade. Conforme é solicitada, poderá estabelecer trocas significativas com as crianças, ao apoiar a brincadeira ou incentivar a maior participação de outras crianças. Dois comportamentos necessários do professor neste tempo, e que são apontados pela TCIS, Escala de Interação adulto-criança, (Farran e Collins, 1996), são o envolvimento verbal e físico do professor. O professor precisa cuidar da maneira como se dirige às crianças e como propõe a troca entre elas.
Quanto ao envolvimento físico, no início do episódio transcrito, pode-se perceber o movimento da professora em se aproximar da criança para lhe dar o apoio solicitado, curvando-se para ficar à altura dela. Além disso, ao ajudar as crianças a enrolar a fita nos braços e nas pernas, ela o faz com calma e movimentos suaves, mostrando-se receptiva em relação aos interesses da criança. Durante todo o tempo, ela escuta e responde às demandas das crianças, sem tentar conduzir a atividade, inibindo suas iniciativas. Esse compartilhamento do controle não impede que a professora incentive as crianças a resolverem seus próprios problemas e buscarem apoio umas nas outras quando necessário. Assim, ela convida Artur a ajudar o colega, embora ele não tenha respondido a essa solicitação. Nesse momento, nota-se que a professora poderia ter sido mais convincente, se tivesse conseguido mostrar para as crianças a ligação entre as ações que cada uma vinha desenvolvendo, tornando mais específica e mais concreta a sugestão “Ele e você se ajudam”. Ao não obter sucesso nessa tentativa de transferir para as crianças a responsabilidade de resolução do problema de forma cooperativa, a professora tomou para si essa responsabilidade, deixando de proporcionar às crianças importantes experiências que poderiam promover o desenvolvimento da iniciativa e relações interpessoais.
Já no momento em que alerta sobre o cuidado que Artur deverá ter ao realizar sua brincadeira, devido ao acorrido no dia anterior, a professora demonstra uma maneira positiva do envolvimento verbal, pontuando e relembrando o combinado do grupo, que é respeitar o corpo do amigo. Ao fazer isto, ajudou a criança a representar mentalmente suas ações, de forma a compreender e antecipar as conseqüências das mesmas, aprendendo a se responsabilizar por seus atos.
Em todo o episódio transcrito acima, a professora demonstrou uma grande tranqüilidade em transferir para as crianças o controle da brincadeira, colocando-se ao nível delas, e envolvendo-se na mesma como mais um participante.
Outro aspecto importante neste episódio se refere ao uso dos materiais, nomeadamente da fita adesiva. Esta brincadeira foi realizada em uma época em que as crianças estavam explorando as propriedades dos materiais e a fita adesiva era um dos materiais mais sedutores para elas. A possibilidade de usar este material em quantidade suficiente para atingir os objetivos propostos permitiu que as crianças experimentassem todo o processo, desde a criação da idéia (transformar-se em um robô) até à visualização do resultado do que tinham planejado realizar, proporcionando o desenvolvimento da representação criativa.

Análise do 2º Episódio
Logo após Artur ir embora, Brian e Antonio interrompem a brincadeira com as colheres de plástico e de madeira. Brian inicia uma brincadeira embaixo da mesa do canto da casa com a Luisa e a Ana Cristina, enquanto Antonio dirige-se para o canto da linguagem. Depois de um tempo, aproximadamente onze minutos após o início desta situação, as crianças retornam para baixo da mesa e a professora senta-se no chão, ao lado delas, para observá-las enquanto brincam. 


Brian

Quer mexer um pouquinho no meu computador? (pergunta para a professora que estava sentada perto da mesa)

Profª.

Quero!

Brian

Eu vou por nos jogos

Profª.

Que jogos tem?

Brian

Stuart Little

Profª.
(fala para o Brian) do Stuart Little? E como é que se joga?
Brian
tu põe ele, o skate embaixo dele, se ele não tiver com o skate, ele não anda
Profª.
(arruma o pezinho do teclado)
Brian
Ele anda sozinho só quando tem os bichinhos de um lado, aí tu mata
Profª.

Tá, como é que eu faço pra matar?

Brian
Tu tens que pular em cima dos bichinhos
Profª.

Vamos lá

Brian

Tá levantado o pezinho de dentro (referindo-se ao teclado)

Profª.
Ó, Stuart (digitando no teclado)
B rian
(mexe com o mouse) Tem que pegar o skate, né? (olha pra frente como se tivesse monitor)
Profª.

Aham! Tem que pegar o skate!

Brian
Não, só quem quer anda em cima do skate.
Profª.

Ah pode andar sem skate também?

Brian
(faz que sim com a cabeça)
Profª.
Ah, então vou andar um pouco com skate e depois eu vou trocar...
Brian
Só que não dá mais pra sair depois
Profª.
Ah, não? Fica até o final do jogo?
Brian
Não, então tem que pegar uns negocinhos, uns negocinho de impulso pra ti sair, senão tem que pular com o skate.
Profª.

Mostra então como é que se joga pra eu aprender! (entrega o teclado pro Bruno) Depois eu jogo!



Assim que a professora senta, Brian já a convida para brincar. A presença do professor nos cantos encoraja a criação das crianças, seja apenas observando-as ou, como mostrado acima, entrando na sua brincadeira, a convite das crianças.
Nestas trocas, a criança se constitui dentro de sua cultura, se apropriando de formas de pensar, agir e sentir próprios do seu meio. Segundo Oliveira (2002) o professor deve “ser uma pessoa verdadeira, que se relacione afetivamente com a criança, garantindo-lhe as expressões de si, visto que ela precisa de alguém que acolha suas emoções e, assim, lhe permita estruturar seu pensamento” (p.203). O professor é modelo de atitudes e hábitos e de acordo com a autora (op. cit.) é “um recurso de desenvolvimento para a criança” (p. 139). Precisa ser afetivo, observador, disponível, responsivo, conhecer os desejos das crianças e propor novos desafios e registrar, além de ser exemplo e transpor nas suas relações com as próprias crianças, normas para se relacionar com os outros. Ao entrar na brincadeira de faz-de-conta das crianças, o professor precisa ter a habilidade de assumir o papel que as próprias crianças lhe atribuem, ou que é criado naturalmente na dinâmica da brincadeira, tendo o cuidado para não assumir a liderança da mesma, direcionando sua realização. Desta forma, ele pode interagir com as crianças, enriquecendo suas experiências de aprendizagem sem escolarizá-las. Por exemplo, no episódio acima descrito, a participação do professor como um aprendiz que precisa ser orientado pela criança para conseguir realizar o jogo, fez com que a brincadeira se tornasse mais complexa, elevando consideravelmente o nível de envolvimento da criança na atividade, pela introdução de problemas a serem resolvidos pela criança. As questões da professora sobre o funcionamento do jogo obrigaram a criança a construir uma representação mais detalhada do mesmo, introduzindo relações de tempo “só quando tem os bichinhos de um lado”, de espaço “tu põe ele, o skate embaixo dele”, “Tu tens que pular em cima dos bichinhos” Tá levantado o pezinho de dentro” “só quem quer anda em cima do skate e de implicação lógica do tipo se...entãose ele não tiver com o skate, ele não anda”, “então tem que pegar uns negocinhos, uns negocinho de impulso pra ti sair, senão tem que pular com o skate”. A professora provocou um avanço na linguagem da criança que, normalmente, não expressa verbalmente esse tipo de relações lógicas, limitando-se a usar frases mais simples, sem subordinação.

Considerações finais
Um aspecto relevante deste trabalho foi mostrar a importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil, considerando que a criança não brinca apenas por brincar, mas sim que, é através da brincadeira que acontece o seu desenvolvimento intelectual, físico e afetivo. O brincar é uma ação do ser humano integral, que o desenvolve físico e intelectualmente, favorecendo a construção de vínculos afetivos e sociais positivos, sendo esta última uma condição necessária para que possamos conviver em grupos.
O professor é responsável em proporcionar interações positivas com as crianças, como também em assegurar as trocas e aprendizagens paralelas entre elas. Para tanto, é necessário que ele lhes ofereça momentos em que possam brincar todas juntas, em pequenos grupos ou individualmente e ainda que saiba atuar e intervir nestas situações. O professor, como o sujeito mais experiente das relações estabelecidas em sala e estudioso deste âmbito da Educação, considera que as crianças aprendem juntas, seja ao imitar uma brincadeira ou aprender possibilidades para resolver uma atividade, um conflito ou uma situação-problema. Com isso, o professor é o responsável em organizar a rotina, tempo e espaço, diária de seus alunos propiciando as trocas entre os pares e com ele mesmo.
Ao valorizar a ação da criança na construção do seu conhecimento o professor oferece apoio à sua atividade sem interferir no que está a fazer, seja observando-a ou até mesmo sendo um sujeito da brincadeira. Mas para que isso aconteça, faz-se necessário que este aprenda a ouvi-los, saiba dar sugestões e aceite as sugestões das crianças, que auxilie na organização destes momentos, que seja atencioso, demonstrando carinho e respeito pelas crianças.
O enfoque utilizado para compreender a interação professor–aluno em sala de aula foi o psicológico–interacionista, por nossa preocupação estar no desenvolvimento e na aprendizagem da criança, considerando que a aprendizagem pela ação é uma condição necessária para a reestruturação cognitiva e para o desenvolvimento (Hohmann e Weikart, 1997).

A corrente interacionista deu espaço a vários estudos relativos à contribuição das interações sociais nas modificações dos conhecimentos e das competências práticas nas crianças, em relação às quais é amplamente reconhecida e demonstrada a importância do papel do adulto (pai ou educador) (VERBA & ISAMBERT, p. 245, 1998).

De acordo com Davis (1989) “Cabe a ele [o professor] garantir a simetria das relações que se estabelecem entre os alunos, evitando que uns se calem, outros apenas obedeçam e outros ainda dominem. (...) criando condições para a colaboração, a compreensão mútua e a comunicação produtiva.” (p.54). Além disso, cabe também ao professor, como integrante ativo destas interações e o mais experiente, pensar e organizar as atividades que garantam a aprendizagem de seus alunos, sendo bem estruturadas e que promovam a interação entre as crianças, isto é, comunicação e trocas; observar e participar quando preciso, enfim, auxiliar os alunos quando necessário para que superem os desafios apresentados em seu processo contínuo de construção do conhecimento. (Davis, 1989)
Um outro aspecto relevante destes primeiros momentos na Educação Infantil é a organização dos tempos da rotina feita pelo professor. Dias (2004) afirma que “a rotina também deve nascer da leitura que as professoras fazem do grupo e de sua própria atuação neste contexto, porque o adulto também faz parte do grupo. Para tanto, é necessário que os adultos também participem ativamente do que as crianças propõem, se envolvam, experimentem, criem, brinquem com as crianças nestas vivências ricas de significados e informações” (p.99).
Segundo esta mesma autora “a rotina influência o comportamento dos componentes do grupo, permite algumas atividades e afasta outras, estrutura as interações (adulto/criança, criança/criança, criança/objeto) e acima de tudo, propicia mediações importantes e necessárias” (p.99). É importante destacar na organização dos tempos da rotina diária a partilha do controle das atividades, ora dirigida pelos professores, ora pelos alunos e ainda o tempo em que ambos partilham o controle.

Referências
DAVIS, C; SILVA, M.A. S. S.; ESPÓSITO, Y. Papel e valor das interações sociais em sala de aula. Cadernos de Pesquisa, São Paulo (71): 49-54. Novembro 1989.
DIAS, J. Um estudo sobre a interação adulto/criança em grupos de idades mistas na Educação Infantil. Dissertação de Mestrado: UNIVALI, 2003.
FARRAN, D. C.; COLLINS, E. N. – Teacher Child Interaction Scale. Vanderbilt University e University of North Caroline. 1996;
HOHMANN, M. WEIKART, D.P. Educar a criança pela acção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.
OLIVEIRA, Z. M. R. Educação Infantil: fundamento e métodos. São Paulo, Cortez, 2002.
VERBA, M; ISAMBERT, A. A construção dos conhecimentos entre as trocas entre crianças: estatuto e papel “dos mais velhos” no interior do grupo. in: BONDIOLI, A. Manual de Educação Infantil: de 0 a 3 anos – uma abordagem reflexiva. 9. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998.
ZABALZA, M.A. Qualidade na Educação Infantil. Porto Alegre: ArtMed, 1998.


*Mestre em Educação pela UNIVALI e professroa do Colégio de Aplicação UNIVALI -  saio@univali.br
** Doutora em Educação – e-mail: mhcordeiro@univali.br

O TEMPO DO PROFESSOR

“O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o Tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo, tempo tem.” Trava-línguas popular

HOJE RESOLVI ESCREVER SOBRE O TEMPO, POIS DESDE MARÇO "NÃO TIVE TEMPO" PARA ME DEDICAR AO BLOG. NA VERDADE, NÃO ME SOBRAVA TEMPO PARA FAZER MUITAS COISAS DAS QUAIS EU GOSTO E ME FAZEM VERDADEIRAMENTE FELIZ. UM AMIGO PRESENTOU-ME COM UM ESTUDO QUE PARTICIPO DESDE MAIO E AS REFLEXÕES SOBRE MIM E TUDO QUE ME ENVOLVE, PERMITIU-ME A CONSCIENTIZAÇÃO EM TEMPO ÁBIL.
SOCIALIZO COM VOCÊS O TEXTO A SEGUIR, DISPONÍVEL EM http://www.logosofia.org.br/, POR ACREDITAR QUE ESSA QUESTÃO DO TEMPO INCOMODA OUTROS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO!
ABRAÇO A TODOS E ATÉ BREVE!


O valor do tempo para a Logosofia - Tempo é vida

É quase unânime a sensação de ansiedade e angústia do homem contemporâneo quando o assunto em pauta é tempo; a falta de tempo.
Perdemos muito tempo com as preocupações rotineiras. Uma pesquisa realizada recentemente pela Triad Consulting, empresa especializada em produtividade e administração do tempo, concluiu que 61% das pessoas ouvidas não encontram equilíbrio entre o trabalho e as atividades pessoais. Aproximadamente 41% das entrevistadas querem diminuir a carga horária destinada ao trabalho. E o dado mais alarmante é que cerca de 58% afirmam que estão gastando o tempo de suas vidas com uma cansativa rotina. Outro estudo realizado pela Unimed-RS que aponta o Índice de Bem-Estar Porto Alegre (IBE) indica que a falta de tempo é um dos obstáculos para a melhoria nas condições de vida na capital gaúcha.
 
Aprender a aproveitar o tempo é um dos exercícios diários que se pratica na Logosofia; e um desafio para os mais de três mil estudantes desta nova ciência que vão se reunir em Brasília, entre 13 e 15 de agosto, no Congresso Internacional que comemora os 80 anos da Logosofia no mundo.
 
No dia a dia costuma-se dizer que tempo é dinheiro!
 
Para a Logosofia, tempo é vida. É preciso ganhar o tempo como se ganha o pão de cada dia; e tempo se ganha quando se vive conscientemente – o que significa manter uma permanente atenção em tudo o que se faz.
 
Perde-se tempo, quando não se faz nada; quando a mente divaga ou não pensa. E esse tempo perdido é vida estéril, que não se recupera mais. Esta nova ciência ensina, em seu método original, a dominar o tempo, fazendo com que seja fértil e produtivo; a aproveitar o tempo com inteligência. Por exemplo: se pensarmos que em dez minutos podemos cumprir uma tarefa, mas gastamos duas horas, além desse desperdício de tempo ainda gastaremos mais tempo depois, lamentando esse tempo perdido. O autor da Logosofia, Carlos Bernardo Gonzalez Pecotche, ensina que a vida ganha intensidade quando é simplificada, porque os movimentos da inteligência se tornam mais rápidos. É possível aprender a não divagar tanto, a não dar lugar à preguiça mental, que impede pensar; e a não gastar tanto tempo com o que não é importante.
 
Com o estudo da Logosofia aprende-se a encontrar o tempo necessário para se dedicar à própria evolução, a obra de sua vida, e poder, assim, ajudar na evolução de seus seme­lhantes.
 
As verdades que a ciência logosófica apresenta devem ser motivo de estudo, compreensão e prática pelo estudante em sua própria vida. Ninguém é convencido a segui-las, mas a descobrir essas verdades por si mesmo. E para isso foi criada uma escola de aperfeiçoamento humano, a Fundação Logosófica, onde os estudantes podem intercambiar as experiências e os resultados obtidos com esse estudo.
 
Vidas múltiplas – Diante dos diversos mundos nos quais é preciso se mover permanentemente, seja na vida profissional, familiar ou social, o tempo é um elemento essencial para que se possa realizar todas as atividades e viver intensamente cada momento. E o segredo para viver com êxito em todos esses ambientes está dentro de cada um. De acordo com a Logosofia, é preciso preocupar-se mais intensamente com a vida interior.
 
Tempo é vida - Um dos exemplos de que tempo é vida pode ser ilustrado, na realização de uma obra de arte. O artista dedicou-se àquela tarefa por um longo tempo, cada dia um pouquinho; a obra de arte é o resultado de todo esse tempo dedicado a ela; o somatório dos fragmentos de vida empenhados nesse trabalho.
 
A vida é assim para esta ciência: deve-se adicionar algo novo, a cada dia, em favor de um resultado que pode ser alcançado a partir do conhecimento de si mesmo.
 
Para estudar – A Fundação Logosófica é uma entidade sem fins lucrativos com objetivos exclusivamente educacionais, que visa promover o processo de superação integral do ser humano por meio de estudos sobre o seu sistema mental e sensível, procurando harmonizar a atuação dos pensamentos, da inteligência e da sensibilidade. Aberta a novos estudantes, a Fundação promove palestras periódicas e reuniões informativas gratuitas em suas sedes no Brasil e em todos os demais países. Para acompanhar a programação das palestras acesse o site:http://www.logosofia.org.br/cursos/default.aspx   

PESQUISAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Estimulação: o desafio para decidir o estilo e a quantidade “correta” de intervenção durante a brincadeira livre das crianças
Saionara Costa, Msc*
Maria Helena Cordeiro, PhD**
Eliana Bhering, PhD***

Introdução
A pesquisa que inspirou este artigo originou-se das observações diárias e das necessidades destacadas no trabalho realizado pela primeira autora na Educação Infantil do Colégio de Aplicação UNIVALI e no grupo de estudos de que participa há cinco anos nesta mesma instituição. O grupo é constituído pelas professoras da Educação Infantil e pelas pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento e Educação da Infância do PMAE (Programa de Mestrado Acadêmico em Educação) dessa Universidade, incluindo as duas co-autoras deste artigo. O grupo vem desenvolvendo o PINTEI - Programa Integrado de Educação Infantil, que inclui a realização de encontros mensais para reflexão sobre a prática pedagógica desenvolvida pelas professoras, tendo como apoio a leitura de autores que destacam as práticas na Educação Infantil como: Zabalza (1998), Hohmann & Weikart (1997), Gandini, (2002), Helm & Beneke (2005), entre outros.
A discussão de questões relacionadas à concepção de criança e de educação, ao desenvolvimento infantil, ao ambiente, à organização do trabalho com as crianças e à interação adulto-criança, tem constituído a base deste trabalho, provocando construções e reconstruções de conceitos.
Iniciamos reorganizando os cantos da sala (da música, da higiene, da história, das lancheiras, do jogo e da casa), em áreas de interesse: casa, artes, linguagem, natureza, jogos e blocos. Os cantos eram utilizados pelas crianças no tempo dos ateliês, nos quais as atividades eram organizadas somente pelas professoras; as áreas de interesse foram disponibilizadas para que as crianças tivessem a possibilidade de escolher as atividades que queriam desenvolver e a forma como as desenvolveriam. Para isso, diversificamos os materiais disponibilizados, seguindo as sugestões do livro “Educar a Criança” (HOHMANN E WEIKART, 1997). Nossa preocupação era oferecer objetos e materiais em quantidade e variedade, que possibilitassem às crianças a liberdade de escolher com o que brincar, sem que houvesse conflitos devidos à escassez de materiais, proporcionando, assim, momentos prazerosos de brincadeira, fundamentais a sua socialização. Organizar o ambiente é fundamental para que efetivamente a sala de aula e as interações entre professora/crianças/objetos possam provocar desafios e possibilitem novas oportunidades de exploração e construção do conhecimento.
O passo seguinte foi refletir sobre a rotina diária proposta às crianças e, assim, reestruturá-la em tempos de trabalho individual, pequenos e grandes grupos, lanche, recreio, parque e atividades extra-classe. Foi enfatizada a necessidade de que fosse garantida a partilha do controle das atividades entre as crianças e as professoras em todos os tempos da rotina e independentemente da forma como o grupo estivesse organizado (individualmente, em pequenos grupos ou em grandes grupos).
E agora, o que desafia o grupo de professoras? Com certeza, é a maneira como interagem com as crianças. Apesar de organizarem a rotina dividida em tempos nos quais professoras e crianças partilham o controle da atividade, se questionam se oferecem possibilidades às crianças ou ainda dirigem todas as suas atividades; se respeitam a iniciativa da criança; se sabem ouvi-la, ou antecipam seu pensamento; se dão o apoio necessário, assegurando sua aprendizagem, ou se estão caindo no espontaneísmo; se interferem na atividade, ou permitem que a realizem autonomamente e como o fazem.
Foi a partir destas indagações que surgiu o interesse em estudarmos a interação professor-criança no contexto da Educação Infantil.
Paralelamente à participação no PINTEI, a primeira autora começou a desenvolver seus estudos de pós-graduação, sob a orientação das outras duas autoras, o que a levou a se interessar pelas indagações que se faziam presentes no seu cotidiano escolar. Acreditava que a busca em compreender tais assuntos lhe proporcionaria a tomada de consciência sobre as suas ações em sala, contribuindo para que, no seu dia-a-dia, se tornasse capaz de identificar as necessidades e a forma mais adequada de intervir junto ao seu grupo de crianças.
Assim, pensando no desenvolvimento profissional das professoras nos próximos estudos desenvolvidos no PINTEI, decidimos investigar a interação da professora (primeira autora) com as crianças, durante o tempo de brincadeira livre. Desafiava-nos a idéia de contribuir para a construção de caminhos que possibilitem aos professores a avaliação de sua própria prática de uma forma mais científica. Não se trata só de verificar os efeitos dessa prática no comportamento e no desenvolvimento e/ou na aprendizagem das crianças. Trata-se de criar uma forma de auto-avaliação em que o professor possa olhar-se, isto é, se ver atuando, para que possa tomar consciência de todas as suas ações, seus gestos, suas expressões verbais e não verbais, sua postura física, seu tom de voz. Partíamos do princípio que o desenvolvimento profissional do professor não é uma questão apenas técnica. Mudar a prática implica também em mudanças de ordem afetiva e, para isso, é necessário que o professor se confronte, não apenas com suas ações, mas também com suas emoções, tomando consciência da relação entre suas ações, seu conhecimento e suas emoções. Consideramos que isso só é possível se o professor for sujeito de sua própria reflexão, de sua própria investigação. Este se tornou, então, o grande desafio que resolvemos enfrentar: desenvolver uma pesquisa em que o principal pesquisador é sujeito de sua própria investigação, embora, enquanto sujeito, ele esteja no papel de professor e não de pesquisador. 
Tomada a decisão de investigar a própria interação com as crianças no desenvolvimento das atividades em sala, os próximos desafios da professora-pesquisadora eram de ordem metodológica: Como tornar isso viável?
Optar por ser sujeito da minha própria investigação não foi uma decisão fácil. Não era apenas a situação de me expor enquanto sujeito de pesquisa que me perturbava. Como pesquisadora, preocupava-me muito mais com a possibilidade de produzir, ou não, um trabalho científico. Questões sobre objetividade X subjetividade de meu olhar, a impossibilidade, ou não, de manter o distanciamento necessário foram pensadas e repensadas, discutidas e rediscutidas.

Estudos que buscam conhecer a dinâmica da interação de professores com as crianças utilizam-se da observação, por ser este um método adequado para investigar e registrar os processos de interação que ocorrem entre dois ou mais sujeitos, no próprio momento em que eles ocorrem. Não se trata de investigar representações, mas ações (inter-ações), mesmo que o conhecimento das representações seja necessário para a compreensão dessas ações, por isso a presença do observador in loco é fundamental. Segundo Richardson (1999) a observação é a base de toda investigação no campo social, podendo ser utilizada em trabalho cientifico de qualquer nível, desde o mais simples estágio até os mais avançados. A pesquisa educacional pode explorá-la utilizando diferentes técnicas de observação, como listas de verificação, avaliações e escala de avaliação, anedotários ou diários de comportamento, resumos periódicos, registros fotográficos, videografia, observações de amostras de tempo, além de outros.
Optamos por efetuar gravações em vídeo, para que, posteriormente, pudéssemos trabalhar com esse material. Consideramos que ele se constituiria em um meio para que a pesquisadora-professora pudesse se ver “no espelho” e buscar organizar as emoções, as sensações, as percepções, as dificuldades e impressões, tanto as vividas na época e revividas ali, na hora em que se defrontava consigo mesma, como as novas, provocadas por esse confronto. “O vídeo tem uma função óbvia de registro de dados sempre que algum conjunto de ações humanas é complexo e difícil de ser descrito compreensivamente por um único observador, enquanto ele se desenrola” (BAUER, 2002, p.149). Ele permite verificar detalhes da situação que, passado algum tempo, poderiam ser esquecidos pelos sujeitos que observaram ou vivenciaram o acontecimento. Além disso, permite sua posterior reconstituição, o que possibilita que a análise seja realizada por alguém que poderia não estar presente no exato momento em que o fato ocorreu. Assim, o uso do vídeo é um aspecto fundamental no caso desta pesquisa, devido ao duplo papel desempenhado pela pesquisadora: na hora em que os episódios se desenvolvem, ela é parte deles, mas não como pesquisadora e sim como professora. O papel de pesquisadora é assumido mais tarde, quando ela passa a observar e analisar os episódios videografados. Como afirma Bauer (2002, p.141) “[...] o aprender não é somente necessário para um reconhecimento básico, ele está também envolvido diferencialmente na percepção de detalhes significativos”.
Optamos, também, por realizar esses registros nos momentos da rotina em que todas as professoras que participavam do PINTEI tinham mais dúvidas sobre a adequação e os limites de suas intervenções: o tempo em que as crianças assumiam um maior controle de suas atividades, pois podiam planejá-las, realizá-las e revê-las e que denominaremos de “tempo de brincadeira livre”.
Acreditamos que a relevância e a originalidade deste trabalho consistem na possibilidade da professora pesquisar a sua própria prática, mediante a garantia das condições necessárias para se fazer este tipo de pesquisa: desejo e disposição, aprender a problematizar, dispor de tempo para pesquisa, acesso a materiais, fontes de consultas, bibliografia, espaço físico e assessoria técnico-pedagógica para o desenvolvimento das ações, além da interlocução com a equipe de colegas e especialistas (neste caso, tanto do PINTEI como do grupo de pesquisa, incluindo a própria orientadora).
Esperamos que, com este trabalho, além de proporcionar a iniciação da primeira autora para o “tornar-se” pesquisadora possamos contribuir para o avanço dos estudos do PINTEI, no que diz respeito à interação professor – criança, pois acreditamos que seja este um fator necessário para a valorização das vivências individuais e coletivas infantis nos espaços da Educação Infantil e conseqüentemente, para a promoção do desenvolvimento das crianças. Esperamos também que ele possa servir como suporte para a construção de instrumentos de auto-avaliação e auto-formação que poderão ser utilizados tanto na formação inicial como na formação continuada de professores para avaliar as suas interações com as crianças, pelo menos no tempo da brincadeira livre.


* ECE professora de Educação Infantil no Colégio de Aplicação UNIVALI, Itajaí/SC - Brazil
** Pesquisadora – Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI – SC – Brazil
*** Pesquisadora – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – RJ - Brazil

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quem foi Celestin Freinet?

Durante meus sete anos no Salesiano, entre professora auxiliar e professora titular, estudei e discuti muito sobre Celéstin Freinet. Vieram muitas metodologias, novos olhares para Educação Infantil, mudanças na minha prática. Ao retomar seu trabalho, observo que apesar das mudanças e novas construções, tenho muito de seu trabalho comigo!


Cronologia de Célestin Freinet:
      1896
       - Célestin Freinet nasce em Gars, no sul da França, na região de Provença, em 15 de outubro.
       - Na adolescência mudou-se para Nice onde iniciou o Curso de Magistério

      1914\1918
       - Na I Guerra Mundial Freinet interrompe seus estudos e alista-se no exército.
       - Sofrendo ações dos gases tóxicos, que prejudicaram seus pulmões para o resto da vida, teve baixa do exército e perambulou por diversos hospitais sem esperança de cura.

      1920
       - Freinet inicia em Bar-Surloup suas atividades como professor-adjunto sem ainda ter concluído o Curso Normal.

      1921\1924
       - Através do sensível contato com os alunos começa as descobertas essencialmente práticas que originaram as atividades voltadas para o interesse das crianças.
       - Também trabalha com os aldeões e forma uma Cooperativa de Trabalho.
       - Começam as primeiras correspondências entre as escolas.

      1926\1928
       - Conhece Elise, artista plástica, que chega para trabalhar como sua colaboradora.
       - Casa-se com Elise e edita o livro A Imprensa na Escola. Criou a revista "La Gerbe" (O Ramalhete), com poemas infantis.
       - Fundou a Cooperativa de Ensino Leigo.
       - Elise e Freinet passam a trabalhar em Saint Paul.

      1933\1939
       - Em função da intensa correspondência decorrente das atividades realizadas na Escola e na Cooperativa acabaram por gerar desconfiança e hostilidades.
       - Freinet é exonerado do cargo de professor em Sant Paul de Vence.
       - Freinet e Elise continuam trabalhando na Cooperativa.
       - A escola de Freinet é oficialmente aberta.
       - Freinet e Romain Roland lançam a idéia do movimento Frente da Infância.
       - Começa a II Guerra Mundial.

      1940
       - Freinet é preso no campo de concentração de Var.
       - Fica gravemente doente e na prisão dá aula para os seus companheiros.
       - Enquanto isso Elise luta pela sua libertação.
       - Após ser solto Freinet se integra ao Movimento da Resistência Francesa.

      1947\1948
       - É criado o ICEM. A Cooperativa já reunia 20 mil participantes.

      1956
       - Preocupados com o excesso de crianças em sala de aula lançam uma campanha nacional por 25 alunos por classe.

      1966
       - Freinet morre na cidade de Vence, na França.

A pedagogia Freinet é centralizada na criança e baseada sobre alguns princípios:
       - senso de responsbilidade
       - senso cooperativo
       - sociabilidade
       - julgamento pessoal
       - autonomia
       - expressão
       - criatividade
       - comunicação
       - reflexão individual e coletiva
       - afetividade
Invariantes Pedagógicas:
       1. A criança é da mesma natureza que o adulto.
       2. Ser maior não significa necessariamente estar acima dos outros.
       3. O comportamento escolar de uma criança depende do seu estado fisiológico, orgânico e constitucional.
       4. A criança e o adulto não gostam de imposições autoritárias.
       5. A criança e o adulto não gostam de uma disciplina rígida, quando isto siginifica obedecer passivamente uma ordem externa.
       6. Ninguém gosta de fazer determinado trabalho por coerção, mesmo que, em particular, ele não o desagrade. Toda atitude imposta é paralisante.
       7. Todos gostam de escolher o seu trabalho mesmo que essa escolha não seja a mais vantajosa.
       8. Nnguém gosta de trabalhar sem objetivo, atuar como máquina, sujeitando-se a rotinas nas quais não participa.
       9. É fundamental a motivação para o trabalho.
       10. É preciso abolir a escolástica.
       10- a. Todos querem ser bem-sucedidos. O fracasso inibe, destrói o ânimo e o entusiasmo.
       10- b. Não é o jogo que é natural na criança, mas sim o trabalho.
       11. Não são a observação, a explicação e a demonstração - processos essenciais da escola - as únicas vias normais de aquisição de conhecimento, mas a experência tateante,que é uma conduta natural e universal.
       12. A memória, tão preconizada pela escola, não é válida, nem preciosa, a não ser quando está integrada no tateamento experimental,onde se encontra verdadeiramente a serviço da vida.
       13. As aquisições não são obtidas pelo estudo de regras e leis, como às vezes se crê, mas sim pela experîencia. Estudar primeiro regras e leis é colocar o carro na frente dos bois.
       14. A inteligência não é uma faculdade específica, que funciona como um circuito fechado, independente dos demais elementos vitais do indivíduo, como ensina a escolástica.
       15. A escola cultiva apenas uma forma abstrata de inteligência, que atua fora da realidade fica fixada na memória por meio de palavras e idéias.
       16. A criança não gosta de receber lições autoritárias.
       17. A criança não se cansa de um trabalho funcional, ou seja, que atende aos rumos de sua vida.
       18. A criança e o adulto não gostam de ser controlados e receber sanções. Isso carcteriza uma ofensa à dignidade humana, sobretudo se exercida publicamente.
       19. As notas e classificações constituem sempre um erro.
       20. Fale o menos possível.
       21. A criança não gosta de sujeitar-se a um trabalho em rebanho. Ela prefere o trabalho individual ou de equipe numa comunidade cooperativa.
       22. A ordem e a disciplina são necessárias na aula.
       23. Os castigos são sempre um erro. São humilhantes, não conduzem ao fim desejado e não passam de paliativo.
       24. A nova vida da escola supõe a cooperação escolar, isto é, a gestão da vida pelo trabalho escolar pelos que a praticam, incluindo o educador.
       25. A sobrecarga das classes constitui sempre um erro pedagógico.
       26. A concepção atual das grandes escolas conduz professores e alunos ao anonimato, o que é sempre um erro e cria barreiras.
       27. A democracia de amanhã prepara-se pela democracia na escola. Um regime autoritário na escola não seria capaz de formar cidadãos democratas.
       28. Uma das primeiras condições da renovação da escola é o respeito à criança e, por sua vez, a criança ter respeito aos seus professores; só assim é possível educar dentro da dignidade.
       29. A reação social e política, que manifesta uma reação pedagógica, é uma oposição com o qual temos que contar, sem que se possa evitá-la ou modificá-la.
       30. É preciso ter esperança otimista na vida. (Sampaio, 1989: 81-99)
Técnicas Freinet
       - Aula passeio
       - Texto livre
       - Imprensa escolar
       - Correção
       - Livro da vida
       - Fichário de consulta
       - Plano de Trabalho
       - Correspondência interescolar
       - Auto-avaliação
Aula Passeio
       Por acreditar que o interesse da criança não estava na escola e sim fora dela, Freinet idealizou esta atividade com o objetivo de trazer motivação, ação e vida para a escola.

Texto Livre
       É a base da livre expressão, pode ser um desenho, um poema ou pintura. A criança determina a forma, o tema e o tempo para sua realização. Porém se a criança desejar que seu texto seja divulgado deverá passar pela correção coletiva.

Imprensa Escolar
       Seu ponto de partida são as entrevistas, pesquisas, vivências e aulas-passeio. Freinet usava o tipógrafo. Todo processo de construção e impressão é coletivo.

Correção
       Para o texto ser divulgado é necessário que esteja perfeito e a correção é fundamental. Ela pode ser feita coletivamente, ou em auto-correção. Freinet acredita que o "erro" deva ser trabalhado com a criança para que ela perceba e faça o acerto.

Livro da Vida
       Funciona como um diário da classe, registrando a livre expressão (texto, desenho e pintura). Esta atividade permite que as crianças exponham seus diferentes modos de ver a aula e a vida.

Fichário de Consulta
       Põe a disposição da criança exercícios destinados à aquisição dos mecanismos do cálculo, ortografia, gramática, história, ciências etc. São construídas em sala de aula pelos professores na interação com a turma. Freinet criticava duramente os livros didáticos fora da realidade da criança.

Plano de Trabalho
       Tendo o currículo escolar como ponto de partida, os grupos de alunos se organizavam para escolher as estratégias de desenvolvimento das atividades que podiam ser realizadas em grupos, duplas, ou individualmente. Para registro do plano são elaboradas fichas onde são anotadas as realizações da semana.

Correspondência Interescolar
       É uma atividade em que a criança faz a aprendizagem da vida coooperativa, uma classe se corresponde com a outra. Depois dos professores terem se comunicado e organizado a forma. Podem enviar: cartas, textos, fitas, vídeos, desenhos e e-mail.

Auto-Avaliação
       A criança registra o resultado do seu trabalho em fichas de auto-avaliação que permitem constantes comparações entre os trabalhos realizados. Segundo Freinet o aluno e o professor devem se avaliar regularmente.